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Os Ensinamentos da Macrobiótica na Alimentação

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Introdução

 

Nos dias que correm parece que tudo nos foge e não temos tempo para nada nem mesmo para os nossos amigos e familiares mais queridos. A situação está de tal forma estremada que nem para nós próprios temos tempo. Quando devíamos, pelo menos, ter alguma atenção à nossas necessidades básicas essenciais. Uma dessas necessidades é primordial – a alimentação. Todo o reino animal e vegetal necessita de se alimentar para obter a energia necessária para viver.

A vida sustêm a vida e como tal a cadeia alimentar é perfeita. O Reino Vegetal alimenta o Reino Animal e o ciclo completa-se pelo retorno deste à terra (Reino Vegetal) sob várias formas decompostas.

O Ser Humano, como topo da evolução animal, detém diante de si uma vasta escolha alimentar pois ao longo de séculos desenvolveu técnicas de transformação dos recursos naturais como nenhum outro ser vivo foi capaz. Após milhares de anos de apuramentos alimentares temos hoje, pelo menos para os países ocidentais, uma vasta panóplia de alimentos à escolha. Mas quer isto dizer que tudo serve para nos alimentar? Não será bem assim.

Uma entidade tão bela e perfeita como é a Natureza providencia-nos sabiamente o alimento apropriado para a nossa continua evolução, isto é, existem alimentos mais apropriados do que outros para nós humanos.

Mas não podemos comer de tudo? Não somos Omnívoros? - Perguntará o nosso leitor.

Bem, é tudo muito relativo.

É um facto que podemos comer de tudo caso queiramos, mas será que devemos?

No dicionário, a definição de Omnívoro é: "Diz-se do ser vivo que utiliza na sua alimentação normal tanto as substâncias animais como vegetais, ou alimentos de qualquer natureza.

Esta questão é discutível pois terá que se analisar o que se entende por alimentação normal nos dias que correm e acima de tudo não se pode generalizar.

Todos os animais provém dos vegetais.

Biologicamente o ser humano é essencialmente vegetariano e a constituição do nosso corpo isso nos diz.

Eis porquê:

A nossa dentição é apropriada para trituração de cereais, vegetais e frutos. Apenas temos 4 "amostras" do que se chamam dentes caninos que em nada se comparam com os mesmos de um animal carnívoro.

O nosso sistema digestivo é muito semelhante proporcionalmente ao de um animal herbívoro, pois possui um comprimento de cerca de 8 vezes o nosso corpo, sendo apropriado para digerir alimentos vegetais fibrosos. Os animais carnívoros possuem um tracto intestinal de cerca de 3,5 vezes o comprimento do seu corpo, permitindo assim um escoamento e evacuação rápidos dos subprodutos resultantes das carnes ingeridas. Além disso, o nosso Suco Gástrico - o Ácido Clorídrico - não tem a capacidade suficiente para digerir convenientemente alimentos pesados e fortes como a carne. Os animais carnívoros por seu lado, possuem um suco gástrico 10 vezes mais potente, próprio para dissolver carnes, peles e ossos.

A nossa evolução intelectual mostra-nos que a racionalidade provém do abandono ao longo da história da ingestão de produtos animais tendo adoptado os produtos de origem vegetal e assim progredirmos mental e espiritualmente. É interessante constatar que ao longo da história os povos mais violentos eram grandes consumidores de carne, que baseavam a sua existência em guerras, saques e conquistas territoriais pela força (Bárbaros, Vikings e infelizmente mais recentemente os Alemães que deram origem à 1º e 2ª guerras mundiais). Contrariamente, os povos mais pacíficos que eram essencialmente vegetarianos contribuíram grandemente para as grandes descobertas da humanidade. Os Maias, Incas e povos orientais em geral.

O Ser Humano evoluiu na Terra ao mesmo tempo que os Cereais. Consideram-se estes o topo da evolução do reino vegetal, pois são o único organismo cujo fruto e a semente são um só - O grão (bago).

Há um teste simples para o caro leitor pensar. Um teste a cru que nos leva a concluir esta questão:

Se alguém lhe apresentar um prato com frutos e legumes crus, sementes, nozes e bagas e, outro prato com um belo bife igualmente cru, qual escolheria para comer? E o que escolheria um cão ou um leão?

Bem, penso que escolheria o mesmo que eu. Eis a diferença, a cru, que nos diferencia dos animais verdadeiramente carnívoros. Podemos cozinhar! Exclamará! Bem, claro que sim mas este é um teste sem subterfúgios. Imagine que não tem como cozinhar qual seria a sua escolha?

Todos os seres vivos tem características próprias que se desenvolvem ao longo tempo atendendo às condições e adaptabilidade ao meio envolvente. Nós somos exactamente isso - o resultado do meio - clima, ar, água, comida, entre outros factores.

Sendo assim e especificamente em termos alimentares, nós hoje somos o que comemos ontem! Ou seja, a qualidade e quantidade do alimento que ingerimos ontem traduz-se na qualidade do que sou hoje. Simples, não lhe parece? Mas esta ideia não está presente na consciência da maioria de nós por várias razões que não cabe a este artigo enumerar por agora.

No sentido de entender e melhorar as nossas escolhas alimentares, logo, a nossa qualidade de vida, os ensinamentos Macrobióticos são de um grande valor.

 

A Macrobiótica

A Macrobiótica (do Grego Macro - grande, e Bios - vida), literalmente Vida Grande, é uma filosofia milenar que abarca todos as facetas da vida como parte integrante de um sistema de equilibro de duas forças antagónicas e complementares que constitui o Universo, conhecidas por Yin e Yang - O Principio Único.

Tudo o que existe tem propriedades Yin e Yang em proporções diferentes e mutáveis. O Universo é dinâmico e tudo está em constante transformação numa "dança" em que o equilíbrio é a chave para a estabilidade do par.

Na tabela seguinte estão exemplificados factores Yin e Yang:

Tabela 1:

ATRIBUTO YIN YANG
Tendência Expansão Contracção
Função Difusão; Dispersão; Separação Fusão; Assimilação; Junção
Movimento Mais inactivo e lento Mais activo e rápido
Direcção Ascendente e vertical Descendente e horizontal
Peso Leve Pesado
Temperatura Frio Quente
Densidade Fina Grossa
Tamanho Grande Pequeno
Biologia Vegetal Animal
Cultura Mais espiritual Mais material
Sexo Fêmea Macho
Atitude e Emoções Mais gentil, negativo e defensivo Mais activo, positivo e agressivo
Trabalho Mais psicológico e mental Mais físico e social
Dimensão Espaço Tempo

Expansão - Contracção; Alto - Baixo; Frio - Quente; Lento - Rápido; Positivo - Negativo; Fêmea - Macho; e a lista é infindável...

"A Macrobiótica não é uma abordagem alimentar restrita, fechada e proibitiva, antes sim uma valiosa abordagem racional e natural aos vários factores individuais a ter em conta."

Os alimentos tomam assim uma importância vital através desta abordagem. Pois é conhecendo as características naturais de cada um e as suas melhores combinações entre muitos outros factores que levam o estudo dos ensinamentos Macrobióticos tão interessante e comprovadamente com resultados extraordinários.

Mas em que princípios se baseia a Alimentação Macrobiótica? Eis alguns pontos essenciais:

O que comemos deve ter em conta vários factores:

  • A nossa constituição natural;
  • A nossa condição actual (estado de saúde mental e física; disposição emocional, etc.);
  • O local geográfico em que vivemos ou estamos temporariamente;
  • A estação do ano;
  • A nossa actividade diária;
  • A altura do dia;
  • O nosso presente estado de saúde;
  • Os alimentos de um modo geral devem ser consumidos preferencialmente integrais, com o mínimo de refinação e transformação.
  • Devemos variar os géneros alimentícios assim como os métodos estilos de cozinhar.
  • Evitar os alimentos extremos (Yin ou Yang). Ver tabela 2
  • Evitar aditivos artificiais, como corantes, adoçantes, conservantes, texturizantes, entre tantos outros químicos.
  • Procurar ter um estado de consciência tranquilo e confiante, estando gratos pela oportunidade de ingerirmos os alimentos.
  • Procurar ingerir os alimentos de origem animal que biologicamente estejam mais afastados de nós, como é o exemplo do peixe em geral.
  • Procurar ingerir os alimentos da época sazonal em que nos encontramos, isto é, por exemplo, o Feijão Verde está pronto a ser colhido e consumido durante o Verão e princípios de Outono e não durante o Inverno e Primavera.
  • Procurar ingerir os alimentos da zona geográfica em que vivemos. Sempre que possível e num raio de 50 Kms.
     

Estas considerações são bastante importantes para uma dieta alimentar equilibrada. Todas elas interagem com os valores Yin e Yang inerentes a cada alimento e ao meio envolvente.

Na tabela seguinte estão exemplificados o que são alimentos mais Yin e mais Yang:

Tabela 2

Extremamente Yang: Mais equilibrados: Extremamente Yin:
Carne vermelha Cereais (*) Frutos Tropicais
Carne branca Vegetais Lacticínios
Ovos Feijões Açúcar
Sal refinado Frutos de climas temperados Refrigerantes
Peixes (Salmão, Peixe espada, Tuna, ...) Algas Especiarias
  Sementes e Nozes Chocolates
  Peixes (Pescada, Carpa, Carapau, ...)
Café ...
 
(*) Entenda-se por Cereais, Arroz integral, Cevada, Aveia, Trigo, Centeio, Millet, Bulgur, Couscus, Milho, ... e não Corn Flakes, All Bran, Mueslis, etc...

Atendendo às características fisiológicas do nosso corpo e às características energéticas e evolutivas dos alimentos e considerando que estamos numa zona Geográfica de Clima Temperado podemos assim elaborar uma proporção padrão nos alimentos a ingerir ao longo do dia:

  • 50 a 60% Cereais integrais. Arroz integral, Trigo, Cevada, Centeio, Aveia, Milho, Millet (Milho miúdo);... (Também sob a forma de pão, flocos, ...)
  • 25 a 30% Vegetais cozinhados de várias formas. Cenoura, Cebola, Vários tipos de couve, Nabo, Abóbora, etc...
  • 5 a 10%, ou 1 ou 2 tigelas de sopas variadas, com especial atenção para a deliciosa sopa de Miso (Pasta de soja fermentada).
  • 5 a 10% de feijões (Azuki, vermelho, branco ou outros, Lentilhas, Soja, Mungo) e seus derivados (Tofu, Tempeh). Algas Marinhas (Wakamé, Kombu, Hiziki, Arame, ...)
  • Para uso ocasional algum peixe de carne branca (Pescada, Carapau, Polvo, Truta, ...)
  • Para uso ocasional alguma fruta, sementes e nozes da época e da zona. (Maça, Pêra, Ameixa, Melão, Uva, Amêndoa, Amendoim, Sementes de Abóbora, Sésamo e Girassol, ...)

A não esquecer os tradicionais produtos da alimentação mediterrânea, como é o exemplo do Azeite, e principalmente os produtos naturais da região em que se vive e a respectiva época sazonal.

"Os Cereais integrais (inteiros, completos) deverão constituir 60% da nossa alimentação diária, devido às suas propriedades nutricionais, bastante indicadas para o organismo Humano."

É bastante recomendado que os alimentos não sejam geneticamente modificados (não - O.G.M) e sejam de origem Biológica. Este factor é cada vez mais importante nos dias que correm. A crescente poluição do meio, o uso e abuso que químicos na agricultura, assim como a modificação genética com consequências ainda desconhecidas na cadeia alimentar, são alguns factores que devemos ter em atenção e redobrada!

 

Em conclusão

Este artigo é apenas um sumário geral sobre a abordagem Macrobiótica na alimentação. Muito mais há por descobrir, aprender fazendo e partilhar.

A Filosofia de vida Macrobiótica é muito rica, e sem dúvida um prazer de estudar pois congrega todas as áreas da vida. Descobrimos que tudo o que somos e tudo o que nos rodeia é o resultado da interacção entre as duas forças permanentes e dinâmicas, conhecidas por Yin e Yang. A mestria está em aprender a ter consciência e discernimento para lidar equilibradamente com estas duas forças em tudo o que fazemos.

Na alimentação e pela minha própria experiência tem sido fascinante descobrir e comprovar que para além daquilo que comemos, existe aquilo que comemos! ...e tudo o resto vem a partir daí.

Poderá descobrir mais sobre Macrobiótica e muitas outros assuntos e práticas interessantes através do Instituto Macrobiótico de Portugal.

Leia, investigue, pergunte, procure na Internet, comprove por si mesmo. Tire um curso de culinária natural ou compre um livro de receitas e experimente. Verá que um dos maiores prazeres da vida, comer, pode ser também geradora de saúde e felicidade, pessoal e global.


 

Nelson Avelar
2001

Tabelas baseadas na publicação:

"The Book of Macrobiotics - The Universal Way of health, Happiness, and Peace"
MICHIO KUSHI 1986

página actualizada a segunda-feira, 19 de Outubro de 2009 00:31:35

© Nelson Avelar 2009

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